Série “Guerra do Contestado – Cem Anos de luta de um povo”. Parte XXII.
Cidadão Pelado
Nasci na brava Caragoatá, no meio do sertão sagrado,
Vim ao mundo pelas mãos da parteira Maria Rosa, que me enrolou num cuero apertado,,
Filho de pai caboclo do pé rachado,
Tenho a pele cor de cuia, cabelo de bugre e o sangue de um guerreiro renomado,
Lavei meu corpo, nas águas do Rio Tamanduá num poço abençoado,
Calço bota de borracha, com um paletó remendado,
Uso enrolado no pescoço, medalhinha de São Sebastião, contra o azar, doença e mau olhado,
Comprei muito mantimentos na Serra da Esperança,na bodega do João Furtado,
Cresci ouvindo a mãe véia (1) contar ás histórias do tempo do “Redute” assombrado,
Onde foi tanta malvadeza contra os inocentes, vinda de todo o lado,
a matança foi feia,as “metralhas” chacinavam o povo aterrorizado,
era tal de “Liodato”, o demônio do sertanejo massacrado,
o grito de liberdade da gente humilde foi degolado,
esconderam os motivos reais disso, chamando de Guerra do Contestado,
clamo por justiça, para São João Maria, num pedido emocionado,
nunca tive condições de ir à escola, não sou alfabetizado,
fui peão de fazenda, que acordava com o berro do gado,
trabalhei na plantação de pinus, onde num acidente com uma motosserra, tive o braço decepado,
hoje sobrevivo com um salário de fome de lixo aposentado,
vivo numa cidade pobre da região, sou um morador favelado,
aonde o futuro ainda não chegou, neste rico estado,
sou brasileiro esquecido, um cidadão pelado.
Mãe-véia, no linguajar caboclo quer dizer avó.
“O povo que não cultua sua história, nunca vai ter importância alguma”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário