O Trovador
Por Almir Visconde
Aparício era o nome do trovador afamado,
Correndo a notícia por todo o pago.
Ginete bagual num verso de ideia,
O afilhado mais aporreado do compadre Téia.
Tinha orgulho de ter na boca dois dentes de ouro,
Vestia bota, lenço, canisa, bombacha, chapéu e uma guaiaca de couro.
Sua língua era afiada igual navalha de barbeiro,
Tinha voz mais forte do que grito de terneiro.
Nunca estudou em escola de doutor,
Mas entreverava as palavras como um sabido professor.
De início mandava um chasque, para sua gente mestiça,
Era um guapo da indiada fronteiriça.
De charla em charla deixava o povaréu a vontade,
Podia ser homem ou mulher de qualquer idade.
Num fandango do Clube Primeiro de Janeiro,
Fez homenagem a Hugo Coelho, o grande gaiteiro.
Já pelejou até com o capeta do inferno,
Dizendo a este que é filho de Deus e para riscar seu nome do caderno.
É um vivente de boa conduta,
Palavrão nunca sai de sua boca, qualquer que seja a disputa.
jamais aceita desafio de quera que não vale um vintém,
Ninharia é bobagem, têm de ser pelo menos por uma nota de cem.
Deixa muita prendinha de rosto vermelho de vergonha,
Quando diz que não veio ao mundo, no bico de uma cegonha.
Na mangueira ceciliense, a cancha da Estaca Zero, num rodeio de patrão
Declamou toda tarde, acompanhado de uma gaitita oito socos, só versos da tradição.
Foi milico valente na infantaria, nos tempos da ditadura,
Ficou acabrunhado, quando viu sua gente morrer, no sofrimento da tortura.
sábado, no surungo do Tio João, encontrou uma alemoa bacana
Que Deu um sorriso e disse que se chamava Joana.
Ele não se fez de rogado,
Convidou ela para dar uma volta de jipe ao seu lado.
Assim é a vida das palavras rimadas,
Termina a trova com muitas risadas.