O Velório à Luz de Velas
O fato que vou lhes contar aconteceu nas terras de São João Maria, quando luz elétrica era coisa do outro mundo, olha que não faz tanto tempo assim. Nas bandas da serra acima tinha um caboclo chamado Orides Ribeiro de Souza, mas era apelidado de Teixeirinha, por sua aparência similar ao cantor gauchesco, que fazia sucesso na época. O Teixeirinha cor-de-cuia sempre andava vestido de bota , bombacha, camisa branca, lenço e um chapéu de aba larga, tudo da melhor qualidade. Ainda era o gaiteiro do lugar, abrilhantando as festanças. Ele também possuía a maior fazenda da região, com enorme quantidade de gado; portanto o genro perfeito que todo o pai queria prá sua filha. Tendo ele sido assediado por muitas moças, entretanto nenhuma chamava a atenção dele. Muito tempo se passou, seus pais se foram para o além, como era filho único ficou solito na vida. Já passava dos quarenta e tinha enjoado de comer virado de couve com pele de porco torrada.
Certo dia encilhou seu cavalo zaino e foi tocar um baile na Campina dos Biridas. Era um puxirum de um amigo seu, na propriedade deste. Na hora da cordeona abrir, o galpão estava apinhado de gente, mas tudo correu em paz, apesar da beberagem ser muito grande. Nesse tumulto Teixeirinha encontrou-se com Isabel, filha de um gringo que chegara à poucos dias. A galega era para ele a mulher mais bonita que colocara os olhos e disse para o alto:
É com essa mulher que vou casar!
Após passados dois meses do ocorrido, o padre abençoava o casamento, na capela da fazenda de Teixeirinha. A partir daquele dia só sorriso no rosto dele. Assobiava aos quatros ventos e Dizia aos amigo que ele encontrou sua Mary Terezinha( mulher do famoso cantor), a dele ainda era mais jovem e mais bela do que a outra.
Após seis meses vivendo a dois, uma tragédia acabou com a alegria do fazendeiro. Foi quando foi trotear o gado para um piquete, atividade que sempre fazia; sempre acompanhado de seu peão e montado em seu cavalo, que já havia habituado com isso. Quando cruzavam um pedaço de mato de repente o animal levou um susto de algo que passou em sua frente e empinou suas patas dianteiras , atirando Orides ao chão: um de seus pés ficou preso no estrivo de montar: o alazão em disparada arrasto-o por vários metros, vindo a este parar só quando o peão laçou-o. Já era tarde demais o fazendeiro estava morto.
O funcionário levou o corpo para a sede da propriedade. Bastou Isabel avistar o marido ensangüentado, para lançar um forte grito de dor, como um golpe de agaga tivesse atingido seu coração derramou suas lágrimas sobre o corpo inerte. Nem sabiam que ela estava na primeira semana de gestação do futuro herdeiro.
Veio da cidade de Caçador, o melhor caixão, vestiram-lhe a roupa que usara no casamento, um terno azul, camisa branca de linho e uma gravata preta. Começando o cortejo fúnebre já passava das oito horas da noite. Pediram então que todos os presentes segurassem uma vela acesa na mão, o cortejo fúnebre iria até o pavilhão da igreja, que ficava próximo a um pequeno morro distante uns quinhentos metros. Parecia uma procissão cortando o sertão. Chegando ao local, puseram o defunto no meio do salão e as várias mortalhas levadas por muitas pessoas. O sacerdote era o mesmo do matrimônio que fez a missa de corpo presente. Abençoando-o e exaltando suas qualidades de bom filho de Deus. Em seguida se atemdeu um pedido de Teixeirinha, de que no seu guarda mento fosse tocado violão e gaita e fosse cantada as músicas que ele mais gostava. Assim se fez, quando os instrumentos fora m tocados , ouviu-se o povo em coro cantar um sucesso do Teixeirinha rio-grandense, “A Morte Não Marca Hora”.
... Aqueles que puderem venham em meu velório
Amigos e parentes meu fãs venham também
O último adeus eu quero de voceis
Será o maior presente que eu levo pro além...”
“Cultura é o fermento da inteligência”
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